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miércoles, 7 de marzo de 2012

Naufragio (en portugués, publicado por O Site. La traducción es de ellos).

(versión original en http://nometiresyerbaenelteclado.blogspot.com/2011/12/naufragio-publicado-en-o-site-brasil-en.html)


Quem terá surgido com o termo navegar? Com seu ruído de ondas quebrando e seu odor de sal, com seu céu total sobre as cabeças que observam, com sua promessa de porto...

E eu acredito que navego! Apenas movo minha mão direita, mas o que desliza é o ponteiro, com sua forma de flechinha inclinada, larga e pacífica sobre a tela.

O céu não se expande, mas páginas. Que também não são semelhantes, mas de alguma forma devemos chamá-las. Tudo neste mundo que não é, tem seu nóme emprestado.

Rio quando tento explicar isto a alguém que não conhece o vocabulário particular dos navegantes. Como se os marinheiros barbados e grandalhões se detivessem diante de um terrestre, para descrever um furacão! Assim costumamos nos comportar quando entramos nos ventos da Rede.

Acontece que às vezes perdemos nossas noites indo de site em site, sem nos mover da cadeira que nos prende. E nessas viagens irreais caímos na única realidade que nos golpeia: nada nos acompanha.

Então a identidade se contamina, e nesses dias pensamos que formato terá, digitalizada, a imagem que nos reflete o espelho. Já não podemos nos conceber só em função da Máquina, esse cachorro de Multivac dos contos de Asimov, que temos diante do nosso rosto dez horas por día.

Não me ocorre achar companhia num boliche, estar na moda ou o que for. Não quero aprender mais um código. Já tenho o meu (o meu?).

Naquela hora alguém me sugere um clube, mas eu não quero fazer ginástica, me domesticam e me esclarecem com a palavra mágica: clube virtual e já entendo tudo.

Entro, cheio de registros, entro, procuro. Encontro dados interessantes, que me parecem de gente interessante. “A diferença entre dados e gente é questão de tempo”, me animo. Recorro ao que me chama a atenção e lanço cartas como dados, esperando ver os pontos. Passado algum tempo, respondem-me da Espanha, Jazmín, diz chamar-se.

O jogo, jogo é. Se não existe esta sentença, deveria ser inventada. Nada mais confiável que a distancia para seduzir, nada tão perfeito como as palavras nuas, sem vozes nem figuras que as cubram. Sós as palavras neste encontro. Virtual é a palavra mágica, já disse.

Durante trés meses viajaram ardentes mensagens atravessando um oceano, mostrando o pouco comum que tem o idioma que nos une. Meses em que jogamos para conhecer o que apenas imaginávamos, onde apenas nos mostrávamos o essencial, o Principezinho que é invisível aos olhos. Nos prometemos coisas impossíveis...

Depois nada. A caixa de correio da tela vazia. Até comecei a revisar o de minha porta (sim, a porta real, a de meu edifício), pensando que havia lhe dado o meu endereço, se por acaso uma carta ao velho estilo - mas nada.

Passaram-se semanas. Há alguns dias estava lendo um livro (o computador estava desligado), quando a campainha tocou desesperada. Desci, abri a porta com cara de cansado e sem me arrumar, pensava em perguntar sobre a pressa com a campainha quando meus olhos ficaram pregados na figura de urna morena que ajeitava os cabelos como se tivesse algum detalhe incompleto.

-Bom dia, Consuelo está? -- perguntou com a pronúncia inconfundível de Castela.

-Quem? Perdão, bom dia. Quem disse que procura?

-Consuelo, Chelo...

Aí percebi. Claro. Tudo foi resolvido em um segundo. As mensagens ambíguas, o siléncio de minha caixa postal... esse meu apelido que soa tão diferente em outros lugares, esta morena tão presente.

-Diga, por acaso vocé é Jazmin?

-Sim, -doía ver como seus olhos seiluminaran- Chelo Ihe falou a meu respeito?

-Algurna coisa. Entre, por favor. -E subimos.

Era uma dessas raras temporadas em que meu apartamento parecia um apartamento e não um estádio pós-show de rock. Por isso ela teve onde se sentar e esperar um café, olhando pilhas de livros nas estantes que separavam ó living da cozinha. Imagino que tentava adivinhar quais eram os de Consuelo.

Quando cheguei com as xícaras ainda não tinha idéia de como lhe dizer a verdade.

Depois do primeiro gole, ela se animou a dizer algo.

-Diga-me ...

-Marcelo.

-... Marcelo, Vocé é alguma coisa de Chelo?

-De certa forma, digo, não sou seu parente nem nada parecido.

-Nao, - riu -se sei alguma coisa dela é que não é atraída pelos homens.

-Sim, também conheço esta faceta dela.

Não podia continuar com essa situação durante muito tempo mais, mas não sabia como sair. Então fingi estar surpreso com a hora, comentei que precisava sair, convidei-a a ficar, que Chelo voltaria a qualquer momento (ainda não sei como pude dizer isso). Concordou.

Saí, toquei a campainha de Raul, meu vizinho. Quando me cumprimentou dizendo: “Que foi Chelo?”, quase o matei. Em troca lhe pedi, por favor, depois te explico, me deixe tomar um banho, me arrumar e me empreste urna roupa. Achei que devia parecer estranho, com essa cara de “deixa detomar vinho barato”, mas não, deixou passar dando um tapinha no ombro e dizendo forte, macho, que não tem problema.

Meia hora mais tarde voltava para casa e lé estava a espanhola, com a mochila sobre a cadeira e lendo um livro que estava certa que era de Consuelo.

-Oi Marcelo! Chelo não chegou ainda.

-Este ... Jazmin, tenho que te dizer urna coisa. Chelo sou eu.

-Ora!... -- e riu. Mas não tanto como antes.

-Sério. Sou eu. Chelo aqul no Uruguai é diminutivo de Marcelo, é um apelido de homem.

-Não, não esta falando serio - e parou. Levantando a mochila lenta, mas corn firmeza

-Jazmin, escute. Eu lhe mandei duas cartas por correio. Disse meu signo, meus autores favoritos, até lhe contei como preparo café irlandês. Mas nunca disse que era mulher.

-Nem que era homem. - Voltou a sentar. Segurou a cabeça entre as mãos, como se fosse cair. - Na Espanha qualquer pessoa sabe que Chelo é Consuelo. Conchita, aomenos. Mas aqui não... E pensar que todo esse tempo estive escrevendo para um homem! E que eu quena surpreender vocé!

De repente começou a rir outra vez.

-Com raz~o nunca me falou de sua menstruação!

Continuamos falando por um tempo. O mesmo que vínhamos fazendo durante meses, só que agora víamos os nossos rostos.

As oito acompanhei-a até á rua. Um taxi a esperava. Deu-me o nome do hotel e me pediu que a fosse buscar no dia seguinte, para lhe mostrar a cidade, cumprindo assim urna de minhas promessas.

Beijou-me ternamente nos lábios quando subia no taxi; uma vez dentro dele me disse: “você teria sido urna Consuelo muito bonita”.

Bebi meia garrafa de Johnnie na casa do Raul, tentando lhe explicar o que estavaacontecendo.

Desci para andar, com a intenção de esclarecer o que o copo não pode e numa porta do edifício me encontrei com a galega, tratando de acertar os botóes e visivelmente mais bébada que eu.

Subimos e a deitei na minha cama. Tinha um corpo vibrante, feito sob medida, que não queria se desprender de minhas mãos quando a deixei entre os lençóis. Tomeia segunda ducha do dia. Desta vez gelada.

Deitei no sofá e demorei para dormir. Umas horas mais tarde despertei com urna língua quente em minha boca e percebi que seus coxas apertavarn minhas costas.

Foi ontem para Madri. Cumpri com minha promessa de lhe mostrar Montevidéu mas só durante o dia, porque as noites foram outro tour. Hoje encontrei anotado em meu livro favorito: “Não deixei de ser lésbica. O que acontece é que vocé é uma mulher muito estranha”. Escrevi estas notas na velha Remington. Raul está aproveitando seu novo computador.

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